Café especial
Como montar a ficha do lote de café especial que o comprador quer receber
Os campos que uma torrefação ou cafeteria procura antes de pedir amostra, o que significa cada faixa de pontuação da SCA e um modelo de ficha para copiar.
Por Allison Freitas, fundador da TBA House
Publicado em · 5 min de leitura
A ficha do lote é o documento curto que apresenta um café ao comprador antes da amostra. Ela precisa responder, numa página, de onde vem o café, como foi produzido, qual a pontuação, quanto há disponível e em que condições ele é vendido. Uma ficha completa adianta a conversa e faz o comprador provar a amostra já sabendo o que esperar.
Na prática, muito lote bom chega ao comprador como uma foto de saca e um áudio de dois minutos. A informação existe, mas fica espalhada. Organizar a ficha leva meia hora por lote e serve para o WhatsApp, o e-mail, o site e a conversa com o agente de IA.
O que o comprador procura na ficha do lote?
O comprador procura, primeiro, saber se o lote cabe no que ele vende. Uma cafeteria que monta cardápio de métodos filtrados lê a ficha de um jeito; uma torrefação que precisa de base para espresso, de outro. Os campos abaixo cobrem as duas leituras.
| Campo | Exemplo | Por que importa |
|---|---|---|
| Identificação do lote | Lote 004, safra 2026 | É como o comprador vai pedir amostra e citar o café depois |
| Produtor e propriedade | Sítio Boa Vista, família Andrade | Comprador de café especial compra também a história |
| Município e região | Carmo de Minas, Mantiqueira de Minas | Origem é um dos primeiros filtros |
| Altitude | 1.150 m | Ajuda a prever o perfil da xícara |
| Variedade | Catuaí amarelo | Define parte do sabor e interessa a quem monta cardápio |
| Processo | Natural, secado em terreiro suspenso | Muda bastante o perfil sensorial |
| Pontuação e quem avaliou | 86 pontos, Q-grader da cooperativa | Dá a referência de qualidade |
| Notas sensoriais | Chocolate ao leite, frutas amarelas, corpo médio | Ajuda o comprador a decidir se pede amostra |
| Peneira | 16 acima | Interessa a quem torra em volume |
| Quantidade disponível | 18 sacas de 60 kg | Evita negociar o que não existe |
| Condição de venda | Preço por saca, posto fazenda ou entregue | Evita surpresa no frete |
Os exemplos da tabela são ilustrativos. Use os dados do seu lote e deixe em branco o que você não tem medido; campo inventado custa a confiança do comprador na primeira xícara.
O que significa a pontuação de um café especial?
A referência mais conhecida é a escala de 100 pontos do protocolo de prova publicado em 2004 pela Specialty Coffee Association. Nele, café com 80 pontos ou mais e sem defeitos primários na amostra é chamado de especial, e a nota resume atributos como fragrância, sabor, acidez, corpo, doçura e equilíbrio.
Em novembro de 2024, a SCA adotou como padrão oficial o Coffee Value Assessment (CVA), que substitui o protocolo de 2004 e separa a descrição do café da avaliação de preferência de quem prova. Na conversa comercial, a nota de 0 a 100 continua comum, então vale informar qual método foi usado na avaliação do seu lote.
Na escala do protocolo de 2004, as faixas usuais são estas:
| Pontuação | Leitura usual |
|---|---|
| 80 a 84,99 | Muito bom |
| 85 a 89,99 | Excelente |
| 90 ou mais | Excepcional, comum em lotes de concurso |
Diga quem fez a avaliação. Uma nota dada por Q-grader, cooperativa, corretora ou concurso tem peso diferente de uma nota atribuída pelo próprio produtor, e o comprador vai querer saber.
Como descrever o processo e as notas sensoriais?
Descreva o processo com as palavras que o mercado usa: natural, cereja descascado, despolpado, lavado, fermentação controlada. Acrescente o que diferencia o seu lote, como secagem em terreiro suspenso ou tempo de fermentação, em uma frase.
Nas notas sensoriais, prefira três ou quatro descritores claros a um parágrafo de adjetivos. "Chocolate ao leite, frutas amarelas, acidez cítrica, corpo médio" ajuda mais do que "café complexo, marcante e equilibrado", porque o comprador consegue confirmar na xícara.
Onde usar a ficha do lote?
A mesma ficha serve a vários canais, e manter uma versão única evita informação desencontrada:
- No WhatsApp, como texto curto ou PDF de uma página, junto com a oferta de amostra.
- No site, como uma página por lote, em texto. É o que permite ao Google e às IAs encontrar e citar o seu café, como explicamos em o que é GEO.
- No CRM, ligada ao funil de amostras, para saber quem recebeu qual lote.
- No agente de IA, como base de respostas para perguntas sobre o lote. Veja o que o agente responde.
Modelo de ficha para copiar
Copie o modelo abaixo e preencha um por lote.
Lote [número], safra [ano]. [Propriedade], [município], [região]. Altitude [metros]. Variedade [nome]. Processo [processo e detalhe]. Pontuação [nota], avaliada por [quem]. Notas: [três ou quatro descritores]. Peneira [faixa]. Disponível: [sacas]. Preço: [valor] por saca, [posto fazenda ou entregue]. Amostra: [como pedir].
Perguntas frequentes
Preciso de classificação profissional para vender café especial?
Para chamar o café de especial com credibilidade, sim. Uma avaliação feita por Q-grader, cooperativa, corretora ou laboratório dá ao comprador uma referência que ele pode confiar. Muitas cooperativas do Sul de Minas oferecem classificação aos cooperados.
Devo colocar o preço na ficha?
Coloque, se o preço for de tabela. Ficha sem preço gera uma rodada a mais de conversa e pode fazer o comprador passar para a próxima oferta. Se o preço depender de volume, informe o preço da menor quantidade vendida e diga que há condição para volumes maiores.
Com que frequência atualizar a ficha?
Atualize a disponibilidade sempre que vender parte do lote e revise a ficha inteira a cada safra. Ficha com lote esgotado gera pedido de amostra que você não pode atender.
Fontes
- Specialty Coffee Association, "The SCA Officially Adopts CVA Descriptive and Affective Assessments as New Cupping Standards", 4 de novembro de 2024. sca.coffee.
- Specialty Coffee Association, padrões do Coffee Value Assessment. sca.coffee/value-assessment.